Concessionária estima gastar R$ 200 mil por mês com manutenção de redes de esgoto; enquanto resíduos descartados irregularmente afetam o sistema, startup recolhe plásticos flutuantes dos rios da capital
Por Milena Monteiro
Graciete Miranda, de 61 anos, já viu vizinhos jogarem lixo pela janela de casa em direção ao igarapé perto de onde mora, em Manaus. Também já presenciou equipes da prefeitura retirarem os resíduos acumulados no local. Mas, segundo ela, as ações de limpeza não impedem que o descarte continue.
“Mas eles perdem o tempo deles, praticamente, porque os moradores jogam tudo lá”, afirma a moradora. Ela relata que o lixo descartado no curso d’água atrai animais como ratos e demonstra preocupação com os riscos de viver perto de uma área poluída.
A situação descrita por Graciete expõe um dos desafios ambientais da capital amazonense: impedir que resíduos sólidos cheguem aos igarapés e comprometam a qualidade desses ambientes. O problema, porém, não se limita ao lixo visível nas margens e na superfície da água. Outra parte dos resíduos chega ao sistema de esgotamento sanitário por vasos sanitários, pias e ralos, provocando obstruções e aumentando a necessidade de manutenção das redes.
Embora estejam relacionados ao descarte inadequado, os dois caminhos têm origens e consequências distintas. Compreender essa diferença é fundamental para dimensionar os impactos sobre o saneamento, o meio ambiente e a saúde pública.
Dois caminhos, impactos diferentes
O esgoto produzido em pias, cozinhas, banheiros e chuveiros segue pelas redes coletoras até as estações de tratamento. Para que o sistema funcione adequadamente, entretanto, é necessário evitar o descarte de resíduos sólidos nas instalações sanitárias.
Segundo Tannia Mattos, coordenadora de tratamento de esgoto da Águas de Manaus, materiais como lenços umedecidos, fraldas descartáveis e outros objetos descartados no vaso sanitário chegam às estações e interferem no processo.
“Se as pessoas descartarem de forma incorreta resíduos sólidos como, por exemplo, lenço umedecido, papel higiênico, camisinha, fralda descartável no vaso sanitário, esse resíduo sólido chega até a nossa estação de tratamento. Isso empata sim no nosso processo de tratamento”, explica.
O impacto financeiro também é apontado pela concessionária. De acordo com Tannia, a empresa estima gastar cerca de R$ 200 mil por mês com serviços de manutenção relacionados a esse tipo de problema.
O descarte inadequado de óleo de cozinha nas pias também pode contribuir para obstruções. Conforme a coordenadora, o material forma uma crosta nas tubulações, favorecendo entupimentos que podem provocar extravasamentos de esgoto e exigir intervenções na rede.
Como medida de conscientização, a concessionária lançou a campanha Olho no Óleo, que prevê pontos de coleta na cidade. O óleo usado pode ser encaminhado para destinação adequada e trocado por sabão e detergente. Segundo a empresa, a cada 70 litros coletados, é possível viabilizar a doação de uma cesta básica.

O engenheiro ambiental e sanitarista Rodrigo Couto Alves, professor do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia da Universidade Federal do Amazonas (ICET/Ufam), explica que o descarte irregular pode comprometer tanto as redes coletoras quanto as estações de tratamento.
Sacolas plásticas, tecidos, fraldas e embalagens descartados em vasos sanitários, ralos ou vias públicas podem obstruir tubulações. Entre as consequências estão o retorno de esgoto para os imóveis, os extravasamentos e o lançamento de efluentes nas ruas ou nos corpos d’água. Nas estações, embora existam estruturas para reter materiais maiores, o excesso de resíduos pode aumentar a necessidade de limpeza e manutenção e, em determinadas situações, comprometer equipamentos, como bombas.
O professor ressalta, no entanto, que o lixo encontrado nos igarapés não necessariamente passou pela rede de esgoto. Os resíduos lançados diretamente na água constituem um problema distinto, ainda que relacionado ao desafio mais amplo da destinação inadequada do lixo.
A contaminação dos corpos d’água também pode ter outras origens, como o lançamento de efluentes sem tratamento. Em relação aos resíduos sólidos, Rodrigo aponta que a degradação de determinados materiais pode liberar substâncias contaminantes ou transportar microrganismos presentes no ambiente. O lixo acumulado também pode servir de abrigo e fonte de alimento para animais transmissores de doenças, além de contribuir para a presença de microplásticos na água e nos peixes utilizados na alimentação.
“São problemas relacionados, mas que possuem diferentes origens e precisam ser enfrentados de forma integrada”, afirma.
Retirar o plástico da água
Enquanto a concessionária atua na operação do sistema de esgotamento sanitário, iniciativas voltadas à coleta de resíduos nos cursos d’água buscam enfrentar o problema do lixo que permanece nos rios e igarapés.
É nesse campo que atua a Awty – Guardião dos Rios, startup de Manaus que utiliza embarcações para recolher resíduos plásticos flutuantes e encaminhá-los para reaproveitamento como matéria-prima.
O CEO da empresa, Jadson Maciel, informou à reportagem que a iniciativa contabiliza 40 coletas, 160 análises gravimétricas, 5.943 resíduos coletados e 153.976 itens analisados. As análises gravimétricas são utilizadas para caracterizar a composição dos materiais recolhidos. Os números foram fornecidos pela empresa; o período a que se referem e a abrangência das coletas devem ser considerados na interpretação desses indicadores.
Após a retirada da água, os resíduos seguem para uma usina de pré-beneficiamento. O processo inclui pré-triagem, triagem, trituração, pré-lavagem, lavagem e secagem. Ao final, o plástico pode ser armazenado ou encaminhado para outras etapas de beneficiamento e fabricação de produtos.
O material processado é transformado em flake, nome dado ao plástico triturado em pequenos fragmentos, que pode alcançar maior valor agregado e servir de matéria-prima para outros processos produtivos.
Segundo Maciel, a startup está em tratativas com a Águas de Manaus e a Prefeitura de Manaus. Ele aponta como um dos desafios do setor as fragilidades na política nacional de resíduos sólidos e defende o desenvolvimento de soluções de coleta de plásticos flutuantes voltadas à gestão pública municipal.
Expansão do esgoto e recuperação dos igarapés
A ampliação da infraestrutura de saneamento é outro componente do enfrentamento ao problema. Segundo Tannia Mattos, Manaus tem atualmente mais de 40% de cobertura de esgotamento sanitário. A meta do programa Trata Bem Manaus é alcançar 90% até 2033, com a implantação de mais de 3 mil quilômetros de redes coletoras e a ampliação e construção de estações de tratamento.
A Estação de Tratamento de Esgoto Raiz teve sua primeira etapa inaugurada em novembro de 2025, segundo as informações fornecidas pela coordenadora. A expansão da rede, contudo, precisa ser acompanhada da conexão dos imóveis ao sistema para que o esgoto produzido seja efetivamente coletado e tratado.
A concessionária também mantém iniciativas de educação ambiental. Entre elas estão o programa Portas Abertas, que recebe estudantes para conhecer as estações de tratamento; o Fonte do Saber, voltado à educação de crianças sobre os processos de tratamento de água e esgoto; e o Saúde Nota 10, desenvolvido em escolas. A empresa também realiza ações porta a porta antes do início de obras, com orientações aos moradores sobre os investimentos e a importância da conexão à rede coletora.
Para Rodrigo Couto Alves, porém, o enfrentamento ao descarte irregular exige medidas que ultrapassem a conscientização individual. O professor destaca a necessidade de melhorar os programas de coleta seletiva, fortalecer a prevenção, ampliar a participação do poder público e implementar instrumentos de responsabilização por crimes ambientais.
A experiência relatada por Graciete Miranda mostra uma das dificuldades dessa tarefa. Mesmo depois de ações de limpeza, ela afirma continuar vendo moradores lançarem resíduos no igarapé próximo de casa. O relato evidencia que retirar o lixo acumulado é apenas uma parte do trabalho: evitar que ele volte a ser descartado no mesmo lugar também exige mudanças de comportamento, alternativas adequadas de destinação e atuação contínua dos responsáveis pela gestão urbana.

